
Para os centristas, a saída de Vítor Constâncio do banco de Portugal é uma necessidade. Ainda assim,
Nuno Melo diz que gostava de ter uma surpresa.
Que expectativa tem em relação ao depoimento de Vítor Constâncio?
Tenho esperança de vir a ter uma surpresa. Essa surpresa seria o Dr. Vítor Constâncio, de uma vez por todas, colaborar a sério com esta Comissão de Inquérito. Isso seria essencial para entendermos o que correu mal na supervisão, porque não exigiram que o BPN desse resposta – durante anos - às perguntas? Porque é que detectaram tantos problemas, mas não actuaram? Já na inspecção de 2002 o Banco de Portugal se queixava de o BPN não colaborar, e assim foi continuando até ao fim! Temos de entender a razão desta sonolência da supervisão, que agora vai custar mais de 2,5 mil milhões de euros a todos nós.
Acredita que o governador do Banco de Portugal está debilitado?
Quais são as principais razões? Se não, quais são os principais pontos fortes de Constâncio? Depois dos escândalos do BCP, do BPN e do BPP, está visto que a supervisão não funcionou. Recomendou a nacionalização do BPN – a tal medida que o governador chamou de “bomba atómica” – num parágrafo de 7 linhas, no fim duma carta de 11 páginas, sem prever os custos - para todos nós que pagamos impostos - desta sugestão. Pior, recusou-se a dar os elementos deste processo à Comissão, que tem a legitimidade de um órgão de soberania, tentando impedir-nos de cumprir o propósito de avaliar, politicamente, a nacionalização do BPN. Lembro que o segredo bancário existe para proteger o depositante e o investidor, não para esconder a incompetência do supervisor.
Acredita que as falhas de supervisão no processo BPN se devem ao modelo seguido ou à figura específica do supervisor?
Constâncio deve abandonar o cargo? Noutros países, e em plena crise, houve supervisores que se demitiram e outros que pediram desculpas. Em Portugal, onde o governador recebe o terceiro maior salário mundial, parece que ninguém assume responsabilidades. Constâncio, para bem da confiança no sistema financeiro, já se devia ter demitido há muito tempo. O modelo, claramente, não serviu e o governador, obviamente, não conseguiu nem prever nem resolver os problemas. O modelo de supervisão tem de ser melhorado e actualizado e Vítor Constâncio já provou que não é capaz. Se isto não é uma falha grave…
Que balanço faz dos trabalhos da comissão?
O que correu mal ou o que poderia ter corrido melhor? Quando o CDS-PP pediu esta comissão, e é bom lembrar quem desde o início lutou pela descoberta da verdade, o PS não a queria e os comentadores escreveram que não serviria para nada. Hoje, é consensual que esta comissão prestigiou o Parlamento e que a ela, e ao trabalho que desenvolvemos, se apurou muito dos casos que deram origem a este buraco que estamos a pagar. O que podia ter corrido melhor? Simples: o Banco de Portugal tinha a obrigação moral e legal de não esconder todo o processo.
Considera que esta comissão pode abrir um precedente perigoso, substituindo-se aos tribunais, já que, embora não condene, tem realizado alguns julgamentos públicos?
Os julgamentos são para os tribunais e tenho a certeza, como disse o Procurador-geral da República, que este nosso trabalho será muito útil. Mas há outro aspecto relevante: para o CDS, esta comissão vai avaliar a supervisão e o processo de nacionalização, pedida pelo governo socialista, que começou no parlamento.
Para o CDS-PP esta comissão realizou um trabalho importantíssimo e, ainda por cima, à vista dos portugueses.
in Público
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