
O CDS-PP apresentou hoje um projecto-lei que prevê a criação do Observatório da Violência Escolar, proposta que o PS considera "não fazer sentido" por ignorar a existência e a acção de dois organismos com o mesmo objectivo.
Na Comissão de Educação e Ciência, os democratas-cristãos sublinharam que "assiste-se a um crescimento acelerado" do fenómeno "nas mais variadas formas e graus de intensidade, desde a simples indisciplina até à prática de crimes como agressões físicas, injúrias, actos racistas e xenófobos, actos de vandalismo, detenção de armas brancas e ofensas sexuais".
Por isso mesmo, consideram que se torna "imperioso" que o Governo assuma um papel liderante no combate ao fenómeno da violência escolar, "mobilizando e coordenando esforços de diversos agentes para atalhar nas suas causas e procurar erradicá-lo nos seus efeitos", segundo a exposição de motivos constante no documento.
O Grupo Parlamentar do CDS-PP propõe que o organismo funcione junto do Ministério da Educação, com a natureza de estrutura de missão, sendo os encargos com o seu funcionamento suportados pela tutela.
"Esta é a terceira vez que o CDS apresenta este diploma e as alterações são poucas comparando com as versões anteriores e tendo em conta que actualmente a situação nas escolas é diferente. Além disso, o diploma não faz sentido porque ignora a criação e a acção do Observatório para a Segurança Escolar e da equipa de Missão para a Segurança Escolar", afirmou a deputada socialista Fernanda Asseiceira, em declarações à agência Lusa.
O diploma prevê que integrem o Observatório da Violência Escolar um responsável de missão, nomeado pelo Ministério da Educação, dois representantes permanentes, um nomeado pela Secretaria de Estado da Juventude e do Desporto e outro pelo Ministro da Administração Interna, e outros quatro representantes: docentes, pais, estudantes e auxiliares de acção educativa.
O organismo agregará ainda a estrutura de acompanhamento do programa "Escola Segura", sendo responsável pela avaliação semestral deste programa e pela realização de um relatório igualmente semestral "que proceda ao levantamento da situação nacional relativamente à violência escolar, bem como identificar as escolas que carecem de uma intervenção urgente".
Compete ao Observatório criar uma linha de atendimento permanente às vítimas de violência escolar, encaminhando as denúncias para as entidades competentes em razão da matéria. O organismo deve ainda "formular recomendações de alteração ou aperfeiçoamento da legislação, das medidas ou dos programas já existentes".
Para os democratas-cristãos é ainda importante que o novo organismo promova e acompanhe a progressiva colocação em todas as escolas do ensino básico e secundário de equipas técnicas completas no âmbito dos serviços de psicologia e orientação.
"Toda a Europa Ocidental tomou um novo caminho para combater o fenómeno, e que hoje se traduz na existência de organizações que têm como função exclusiva estudar e combater a questão de violência escolar nas suas várias vertentes. A este propósito, e a título de exemplo, refira-se a criação, em 1998, do Observatório Europeu da Violência Escolar, no âmbito de uma parceria dos países da União Europeia, patrocinada pela Comissão Europeia, precisamente para intensificar o combate a estes fenómenos", lê-se no diploma.
O CDS-PP considera ainda que o programa "Escola Segura", apesar de ser fundamental para que o fenómeno não atinja proporções ainda maiores, é já "insuficiente para prevenir e colmatar falhas de segurança nas escolas".
Sem querer adiantar o sentido de voto do PS quando o diploma subir ao hemiciclo, Fernanda Asseiceira lembrou apenas que o partido votou contra esta proposta nesta legislatura, quando já tinha sido criado o Observatório para a Segurança Escolar.
Segundo este organismo, no ano lectivo 2005/06 registaram-se um total de 3.523 ocorrências contra pessoas, às quais se juntam 1.768 acções contra o património, como roubo de bens e vandalismo, só nas escolas sob alçada das direcções regionais de educação do Norte e de Lisboa.
No total, foram contabilizadas 207 agressões contra alunos nos acessos aos estabelecimentos de ensino, 326 agressões contra professores dentro da escola e 64 nas imediações e um total de 766 relatos de injúrias contra funcionários.
O número de casos de "bullying", comportamento agressivo e intencional de alunos mais velhos, fortes ou populares sobre colegas mais novos e com menos popularidade, vítimas de rejeição social, insultos diários e até maus-tratos físicos, passou de 1.876 em 2004/05 para 2.160 no ano lectivo seguinte.
Os dados relativos ao último ano lectivo deverão ser divulgados até ao final do ano.
Lusa