
O ex-ministro das Finanças
Bagão Félix criticou terça-feira à noite o “discurso da mentira” do Governo PS, afirmando que a consolidação orçamental não foi atingida e que o défice só diminuiu devido ao aumento dos impostos.
“Como é que passou o discurso da mentira durante estes anos todos. A despesa passa de 46,3 por cento do PIB em 2004 para 47,8 do PIB em 2009. Ou seja aumentou em 1,5 por cento do PIB. Qual consolidação?”, criticou Bagão Félix, num colóquio promovido pelo CDS-PP sobre o Orçamento do Estado para 2009 na sede daquele partido.
Bagão Félix apresentou quadros comparativos dos números de 2004 (em que era ministro das Finanças) e os previstos para 2009, criticando o aumento da pressão fiscal como “expediente” para uma diminuição do défice sem uma verdadeira diminuição da despesa do Estado.
“Passados quatro anos o que nós assistimos é a um aumento da despesa total do Estado em função da riqueza nacional. A um aumento brutal da pressão fiscal, que passou de 34 por cento do PIB [em 2004] para 38 por cento [em 2009]”, afirmou Bagão Félix, ministro das Finanças do Governo PSD/CDS-PP, entre 2004 e 2005.
“O dia em que as pessoas deixam de trabalhar para o Estado passou de 8 de Maio, que era em 2004, para 19 de Maio que vai ser em 2009, mais doze ou treze dias", afirmou Bagão Félix, referindo-se ao «dia da libertação fiscal».
"Em 2009, se ao défice apresentado juntarmos o aumento dos impostos, chegamos praticamente ao mesmo valor que em 2004, 5,4 por cento. Em resumo, não houve consolidação orçamental”, acrescentou.
Bagão Félix disse que em 2004 houve uma diminuição do défice com recurso a receitas extraordinárias e questionou se será melhor para a economia que a diminuição seja conseguida com recurso a impostos. “As receitas extraordinárias têm uma vantagem sobre os impostos. As receitas extraordinárias quando nascem, morrem e os impostos raramente morrem. É uma completa mistificação dizer-se que houve consolidação orçamental. Houve uma diminuição do défice”, disse.
Bagão Félix pediu aos deputados do CDS-PP presentes no encontro para exigirem uma “base comparável” entre orçamentos, frisando, a título de exemplo, que apesar de não serem assim nomeadas, “o OE para 2009 está cheio de receitas extraordinárias”. “A alienação de imóveis e activos, que no meu tempo se chamavam receitas extraordinárias, e outro tipo de receitas, hoje não são?”, questionou, apontando alguns exemplos como as “receitas de direitos de utilização do domínio hídrico pela EDP” que renderão ao Governo em 2009 cerca de 830 milhões de euros.
No debate, questionado pelo líder do CDS-PP, Paulo Portas, sobre a proposta do Governo para que as famílias que não conseguem pagar os empréstimos à habitação possam permanecer nas casas como arrendatárias, Bagão Félix disse desconfiar da ideia.
Bagão Félix assinalou ainda que essa medida se destina apenas a quatro por cento da população, a percentagem do crédito mal-parado.
“Eu desconfio. Não há fundos grátis. É difícil conceber um sistema em que ganham todos. A natureza do negócio não é assim. Então ganha o banco, ganha o proprietário, ganha o fundo e ganham os subscritores do fundo?”, questionou.
Bagão Félix considerou que o essencial seria ajudar as famílias que “estão com dificuldades em pagar a prestação, e não apenas aqueles que já estão em incumprimento, uma minoria”.
Lusa