
O CDS-PP exigiu hoje a presença no Parlamento do ministro da Justiça, Alberto Costa, para justificar o programa de troca de seringas nas prisões, considerando que esta medida "viola preceitos legais e constitucionais".
"Este programa de troca de seringas nas prisões não será possível sem que se violem preceitos legais e constitucionais. Isso não é admissível num Estado de direito mas, havendo essa vontade, é preciso que seja assumida pelo responsável da Justiça", justificou
Nuno Melo, deputado e porta-voz do CDS-PP.
Em requerimento entregue na Assembleia da República, o CDS-PP pediu a presença de Alberto Costa na Comissão parlamentar de Assuntos Constitucionais.
Nuno Melo salientou que a pena de prisão tem uma função de "ressocialiação do preso", uma tentativa de alterar os comportamentos que levaram a essa condenação.
"Ora a esmagadora maioria dos toxicodependentes presos cometeram um crime em razão desse vício", sublinhou Nuno Melo.
Por outro lado, o deputado democrata-cristão frisou que o Estado, de acordo com o Código de Processo Penal, "está obrigado a investigar crimes de que tenha conhecimento, nomeadamente crimes públicos", como é o caso do tráfico de droga.
"Ao dar uma seringa a um preso, o Estado está a capitular perante o que considera ser a inevitabilidade de um crime e a criar regras de convivência com os criminosos", criticou.
Por outro lado, acrescentou, ao facultar a seringa o Estado tem "nos termos da lei a obrigação de abrir uma investigação criminal que permita determinar como é que a droga entrou ilegalmente na cadeia e como chegou às mãos dos presos".
"Se não o fizer está a demitir-se de uma função basilar do Estado de direito", alertou, exigindo que o ministro Alberta Costa esclareça qual vai ser a atitude do Estado nesta matéria.
Nuno Melo recordou que a associação dos guardas prisionais - que irão ser responsáveis pela entrega de seringas - está contra a medida, alertando que "a seringa pode ser usada como uma arma".
Para o CDS-PP, com este programa, "o Estado está a dar um sinal errado à comunidade, ao apostar tudo na redução de danos e nada na prevenção e tratamento", recordando o testemunho de um toxicodependente do Estabelecimento Prisional de Lisboa que disse só se ter recuperado por não haver droga na cadeia.
"O toxicodependente tem um défice de vontade, quando é o próprio Estado a dar o sinal errado, o toxicodependente não tem estímulo para se tratar", criticou, considerando que todos estes argumentos justificam a audição parlamentar do ministro.
O CDS-PP não considera, por enquanto, a possibilidade de recorrer a um agendamento potestativo para esta audição - que é inviabilizada caso o PS vote contra - dizendo que o partido "não põe a hipótese de o ministro da Justiça não querer prestar estes esclarecimentos".
O programa experimental de troca de seringas para reclusos nas prisões portuguesas, que pretende fazer diminuir a contaminação de doenças infecto-contagiosas entre presos, começou hoje nas cadeias de Lisboa e Paços de Ferreira, mas apenas na sua vertente teórica, já que a troca efectiva de seringas começará apenas em Outubro.
A medida tem como objectivo diminuir a contaminação de doenças infecto-contagiosas, como hepatites ou Sida, entre os presos que consomem drogas e partilhavam seringas entre si.
O ministro da Justiça, Alberto Costa, justificou hoje o adiamento da troca de seringas nas prisões com a necessidade de formar todos os intervenientes no processo, nomeadamente os guardas prisionais, mas frisou que "sempre estiveram previstas acções de formação".