terça-feira, julho 15, 2008

Opinião - A Esperança

"Portugal não tem dinheiro para nada"
"Devia ser proibido baixar os impostos"
Manuela Ferreira Leite

Duas virtudes devem ser creditadas à nova presidente do PSD, Manuela Ferreira Leite. Apresentou no congresso uma rica colecção de competentes celebridades na equipa directiva e, desde há um mês, o debate político está centrado no que a senhora diz ou no que a senhora cala. Estas duas virtudes permitiriam, desde logo, a inversão de um ciclo de decadência e degradação do maior partido da oposição que, conjugadas com as dificuldades e os 'azares' de Sócrates, dariam ao PSD acesso à disputa da vitória nas próximas eleições legislativas.
Portugal, como todo o mundo ocidental, vive um grave momento de crise. Mais profunda no nosso país porque, ao contrário de outros, vai para uma década que mina as nossas vidas e projectos. Parece não haver confiança que resista a dez anos de desilusões.
"Crash" nas bolsas, investimento em queda alucinante, consumo em forte recessão, desemprego alto e duradouro. Assim vai a economia e a sociedade. Como a crise é longa, vive-se "uma situação de emergência social", para usar, uma vez mais, as palavras de Manuela. Sentimos que no Estado pouco ou nada funciona: a educação pública condena gerações de jovens ao subdesenvolvimento intelectual, a Justiça envergonha qualquer cidadão de boa-fé, a burocracia emperra qualquer energia, a pobreza contamina a vida de muitos.
Em 2009, destemido mas desgastado, José Sócrates irá apresentar-se com o projecto de socialismo de continuidade baseado na fé de que o Estado central tudo pode e a todos acode. Os resultados destes últimos anos de governação são escassos mas, na ausência de alternativas, o povo não permitirá que o poder caia na rua. Acresce que nunca um primeiro-ministro candidato foi derrotado em legislativas.
Portugal, porém, precisa de alternativa. É a própria essência da democracia que está em causa. A principal função de uma alternativa política, no presente caso, é devolver a esperança aos cidadãos. Portugal precisa sobretudo de esperança. Uma esperança sustentada em propostas políticas fundamentadas e credibilizada por uma equipa de excelência.
Essa alternativa, a existir, está ancorada no PSD. O CDS pode e deve crescer para conquistar o seu lugar, mas é impensável que ganhe as eleições em 2009. Por isso, preocupam-me muito os sinais que vão sendo dados no discurso de Manuela Ferreira Leite. A situação dispensa catastrofismos e, para a ultrapassar, já não vamos lá só com seriedade e competência técnica. Uma alternativa que não nos devolva a esperança não é útil, nem credível. Os portugueses precisam do engenho e da arte de um político que nos faça acreditar. Alguém que nos convença que 'Sim, nós podemos'. Entre outras coisas, podemos sair deste miserabilismo em que nos deixámos atolar.
Porque sou de direita, espero que a Dr.ª Ferreira Leite corrija o discurso. Caso contrário, a direita não será tão cedo alternativa.

António Pires de Lima