sexta-feira, setembro 08, 2006

Opinião - PS: o partido segundo Sócrates

Boa forma, esta, a de um primeiro-ministro comunicar com os portugueses através de um artigo de opinião. De tanto na sua dupla qualidade de chefe do Governo que nos governa e de secretário-geral do PS que o elegeu, Sócrates fala para fora e para dentro e com habilidade, reconheço, deixa vários recados entregues.

O partido fica a saber que se reúne no tempo certo, com a agenda certa e naturalmente que este é o congresso do "PS certo". Nem pensar em estados de alma próprios dos desgraçados que forçejam na oposição. "Este" PS governa Portugal e é bom que se comporte. Fica afastada qualquer agenda chorona, saudosista ou que deixe transparecer mágoas e ressentimentos, porque só interessa o futuro e o futuro não tem memória destes detalhes históricos. Todos os congressistas serão, certamente, por opção e vocação, membros activos desta brigada especial, insuflada pelos ventos da História, que vai encontrar o nosso rumo e o nosso desígnio.

E nós ficamos a saber que o Governo diagnostica e actua, pensa e faz, alheio à gritaria dos interesses instalados, em nome, sempre, do interesse geral.

Não sei bem se tem sido assim ou se só parece ser assim. Mas o certo é que a longa lista de acções levadas a cabo nas mais variadas áreas que o autor refere no mesmo artigo mostra alguma coerência intrínseca, em torno da questão prévia e determinante de qual deve ser o papel do Estado, matéria que se tem mantido confusa e opaca, não obstante as sucessivas revisões constitucionais desde 76.

Inquieta-me porque esta era, em meu entender, a grande missão da direita - encontrar o lugar certo do Estado - quer quando esteve na oposição quer quando foi Governo. Falhou. E agora Sócrates apoderou-se desta missão, que qual res nullius política podia, de facto, ser apropriada por qualquer um que a percebesse como estratégica.

Em "nossa" defesa relembro a obstrução sistemática feita pelo PS e os ouvidos moucos do Governo Guterres relativamente a todas estas questões: a reforma da administração pública, o como conseguir a equidade e a sustentabilidade dos sistemas públicos de protecção social (vide o rendimento mínimo garantido, a recusa liminar de repensar o serviço nacional de saúde, a opção por um modelo de ensino pouco realista e menos eficaz, etc., etc…), a consolidação das contas públicas e tantas outras matérias, já então manifestamente urgentes, que foram sendo adiadas sem outro motivo que o da incomodidade de as tratar.

Mas esse também é um traço distintivo de Sócrates: a atracção pelo que é incómodo, segundo o léxico político vigente. Algo que em Portugal sempre deu dividendos e que o próprio claramente percebeu aquando da guerra da co-incineração que conduziu, sozinho, a partir do Ministério do Ambiente.

Por outro lado, não deixa de ser elucidativo que o único tema que o secretário-geral do PS considera digno de ocupar o congresso, para além do futuro de todos nós, seja o relacionado com aspectos do funcionamento do partido. Também esta deveria ter sido a primeira preocupação dos partidos de direita logo após as últimas legislativas: prepararem-se para a concorrência, justamente desgastante, movida pela má percepção que os cidadãos têm dos partidos e da sua efectiva utilidade. De facto, pensando nestes últimos dez anos, era da direita que se esperaria um think tank sedeado num instituto de estudo das políticas públicas. E digo isto porque a direita tinha, em Portugal, particular legitimidade numa matéria em que o radicalismo obscurantista da esquerda radical e a branda correcção política da outra impediram qualquer reflexão serena e profícua. Foi o que fez, aliás, o PP espanhol, captando os sinais de mudança e preparando com grande êxito a sua chegada ao poder, tendo alimentado com boas ideias e melhores práticas dois mandatos decisivos para a modernização da Espanha.

Para a frente é o caminho, diz o povo e é bem verdade. E o caminho vai ser longo tanto para a oposição quanto para o Governo. Muita coisa pode acontecer (ou não acontecer). Acresce que o artigo do eng.º Sócrates assenta numa situação conjuntural de que ele é o protagonista e não, como claramente se lê, numa situação estrutural de que o PS é o dono institucional.

Ora é neste espaço, a fresta estreita entre Sócrates/PS e Governo/partido, que a oposição de direita deve assentar arraiais para, a partir daí, iniciar a reconquista do espaço a que tem legitimamente direito, por natureza e vocação.

Maria José Nogueira Pinto

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