Sexta-feira, Fevereiro 23, 2007

Opinião - Os labirintos da 'social-democracia' em Portugal

Os códigos genéticos, os ADN, interessam tanto para as instituições como para as pessoas.
É por isso que, quando se regista um cenário de crise na vida partidária portuguesa e dentro de um dos maiores partidos, se registam também as análises políticas do fenómeno, em catadupa; umas mais ocasionais, mais à vol d'oiseau, outras mais fundas, mais históricas.
É o que está a acontecer com o PSD: o PSD tem uma genealogia e uma história que me abstenho de recordar pois tal tem sido feito e bem por vários comentadores.
Para mim, o PSD tem uma base de direita "sociológica" e "ordeira" dos finais do regime autoritário, recriada na situação de "perigo totalitário" causada pelo PC e pela esquerda radical, nos pós-25 de Abril.
Juntou-se esta "base" à volta de Sá Carneiro, que tinha ganho os seus créditos de "oposicionista", ma non troppo, com a adesão e rompimento com o marcellismo, através da ala liberal; com outras pessoas das mesmas origens e linha política de Lisboa e Porto, no princípio dos anos 70. E fazendo a ruptura pela questão das "liberdades públicas", evitando a questão ultramarina: o suficiente para criticar e ficar de fora, à espera de vez.
Essa "vez" chegou com o 25 de Abril de 1974, quando as oposições - um PC estalinista e arqueológico, que sonhava repetir os dias de Outubro e de Praga em 1917, aqui à margem do Tejo; e uma "oposição democrática", enfiada à pressa no PS, fundado também à pressa e à pressão na Alemanha Ocidental, por Mário Soares, para ficar na fila de espera, quando o regime caísse - e os MFA, que o tinham derrubado, e brincavam às "decisões históricas", socorrendo-se de ideólogos de serviço para todos os gostos, desde "criativos" da "direita revolucionária" até aos "intelectuais orgânicos" do PC, tomaram o poder.
O PSD deu então jeito - no CDS, o prof. Freitas do Amaral, ex-procurador à Câmara Corporativa, tinha mais dificuldade com "créditos" antifascistas. E sobretudo, não queria "fascistas" (leia-se ANP) no seu CDS. Estes, a nível do "resto do País", foram para o PSD e Sá Carneiro aproveitou.
Depois foi arranjar uma etiqueta bem politicamente correcta e vaga - a social-democracia - e juntar nesse chapéu da D. Emília tudo: conservadores, liberais, ANP históricos e o prof. Emídio Guerreiro.
Mais tarde, com a recuperação democrática e adesão de alguns ex-maoístas, ex-nacionalistas, ex-esquerdistas, o elenco ficou completo.
Mas, apesar de esforços pensantes, o PSD nunca conseguiu explicar em que é que, "ideologicamente", diferia do PS do dr. Soares, desde que este de lá expulsou os socialistas-revolucionários e mostrou que, aqui no seio da NATO e numa nação antiga, que não tinha nada a ver com mujiques, Kerensky batia Lenine aos pontos.
O seu sucesso, do PSD, resultou sim de uma mobilização a nível de militantes e quadros médios e provinciais de um eleitorado de classe média, fortemente anticomunista, sem grandes pruridos "antifascistas" (como os "antigos" do PS), simpatizando com as ideias de mercado, mas também de justiça social e primeiro traumatizado e depois só irritado com a confusão de 1974-76, com o PC, com os "esquerdistas", farto dos MFA a tutelarem a "jovem democracia".
Este eleitorado, com todas as bandeiras da tal "direita sociológica" ou, para não "ofender pudores", do "centro-direita" - desde nacionalistas e conservadores até liberais, e até sociais-democratas "autênticos" -, foi votando um "líder" e quando não tinha "líder" - pessoal, com autoridade, mandando mesmo, como Sá Carneiro e depois Cavaco Silva - ficou fora ou aqueceu pouco tempo a "cadeira" do poder.
Teve outros líderes - P. Balsemão, Mota Pinto, Fernando Nogueira, Durão Barroso e Santana Lopes -, mas que, por razões várias e ponderosas, nunca duraram muito.
E sempre que não há líder no poder - e o PSD, desde Cavaco Silva, tem tido uma "alta rotatividade de chefias" -, e líder sem poder em Portugal não dura muito, entra-se nas patéticas discussões da doutrina.
Mas, como quer evitar questões fracturantes, o PSD deixa em branco uma posição sobre o referendo e divide-se; não consegue comandar uma questão tão importante como a Câmara de Lisboa; está a fazer uma renovação de "princípios"; espera-se não fique pela retórica dos chavões tipo "modernidade", "sociedade civil", "mudança tecnológica" e fale um bocadinho de política.

Maria José Nogueira Pinto
Vereador da CML
in DN

0 Comentários:

Enviar um comentário

<< Home