quarta-feira, fevereiro 20, 2008

Opinião - As duas caras de Sócrates

Como dizia ontem ao Meia Hora, pareceu-me simbolicamente ajustado que a entrevista a José Sócrates tivesse sido transmitida na programação televisiva entre as novelas Sete Pecados, Desejo Proibido e Duas Caras. Com o Jornal da Noite pelo meio, as imagens das cheias e do país que não está preparado sequer para resistir a uma noite de chuva intensa.
Julgo que não será difícil a cada um dos leitores alinhar sete pecados do primeiro-ministro, da arrogância à prepotência, passando pela incapacidade para lidar com os que discordam das suas opiniões. As duas caras de José Sócrates também já são bem conhecidas: a que exibe em tempos de campanha eleitoral e a que tem apresentado no Governo.
O desejo proibido é o de todos: que tivessem sido cumpridas as promessas de não subir os impostos e de criar 150 mil novos empregos. Três anos depois de assumir o poder, o primeiro-ministro demonstra que não mudou e garante ter criado emprego “líquido”, no valor de 97 mil novos postos de trabalho.
Sólido não é, de facto. De resto, levou a lição bem estudada para o estúdio de televisão, como seria de esperar num político profissional. Não é o picareta falante mas o legítimo herdeiro da cassete de António Guterres.
O mais grave é que o país das maravilhas de que falou na segunda-feira à noite não cola com a cada vez mais dura realidade. José Sócrates pode até convencer-se a si próprio e aos indefectíveis do Partido Socialista, mas já não convence Portugal e os portugueses.
O que falta é alternativa.

Paulo Pinto Mascarenhas
Director da revista Atlântico e autarca CDS

publicado no Jornal Meia Hora

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