sexta-feira, agosto 25, 2006

Opinião - A direita, as direitas e os partidos

Chego da Tunísia e verifico que, a propósito de quase nada, a silly season conseguiu produzir um aparente facto político.

Trata-se do famigerado congresso da direita portuguesa, depois tratado como "Estados Gerais". Aos iludidos promotores parece bastar a ocorrência do evento. A substância da questão está manifestamente fora das suas intenções e preocupações.

A convocatória seria do presidente do PND, mas, como ele próprio afirma, a título individual, visto que o seu partido ainda não decidiu se está à direita ou se está à esquerda.

A substância da questão é, contudo, muito diferente. E por isso o tal congresso da direita portuguesa não acontecerá certamente e uns "Estados Gerais", se acontecerem, o presidente do PND será certamente o último a saber.

A organização partidária do espaço da direita no post-25 de Abril sofreu uma evidente má formação genética explicável pelas circunstâncias históricas, o PREC, o pacto MFA- -partidos e tudo o mais que se conhece, o que levou ao assentamento de uma direita "consentida". Nesse mesmo tempo, embora noutros espaços, uma parte significativa e representativa da direita portuguesa não viu nesses partidos nem poder de convocatória nem legitimidade representativa (releiam-se os programas então apresentados pelo PPD ou CDS…) e optou por se manter à margem deles, resistindo quando foi preciso, votando útil quando em quem considerou um mal menor.

A matriz partidária da direita sofreu esta perversão fundacional, o que explica que as respectivas bases estejam, em regra, mais à direita que os seus dirigentes e o facto de serem estes, e não os partidos organicamente considerados que, recorrentemente, mudam pelo discurso ou pela prática, os respectivos fundamentos doutrinários, com as consequências da deslocalização do eleitorado, a multiplicação das crises internas, a confusão do discurso e a mudança sucessiva de prioridades e programas.

Se é certo que a crise político-partidária é generalizada, atingindo do mesmo modo a esquerda, a ruptura histórica de 74/75, à direita, constituiu um ónus, ainda não ultrapassado.

A oportunidade da refundação da direita não decorre, contudo, do mau estado partidário, mas antes, por exemplo, da necessidade de fornecer enquadramento ideológico e doutrinário a modos concretos de ver Portugal, de rever conceitos face às grandes transformações das sociedades, de dar forma a aspirações e reivindicações quanto ao fundo e ao modo de governação.

Neste sentido - o único que realmente interessa - esta refundação parte de um exercício intelectual, cultural e político ocorrendo por definição fora do território partidário, caracterizado hoje por separar mais do que junta e partir mais do que une, ciclicamente desgastado por discórdias e cizânias internas.

Para este exercício são indispensáveis os que, para além dos partidos, reflectem estas questões, constroem pensamento, estudam, se informam e debatem com uma liberdade e rasgo que a cultura dominante subtrai aos que exercem actividades partidárias, em regra limitados a uma agenda mediatizada e medíocre.

É neste universo muito mais vasto - hoje curiosamente visível, por exemplo, na blogoesfera - que as direitas (e as suas novas gerações) se manifestam e se arrumam numa organicidade inorgânica, muito mais produtiva no plano das ideias e muito mais estimulante no plano interventivo. É assim que exercem a sua influência com um alcance transversal, suprapartidário, e comprovada efi- cácia.

Esta refundação só pode ocorrer por uma conjugação de vontades, na sua esmagadora maioria exógena aos partidos. Ou seja, a refundação da direita a partir de uma reflexão cruzada das direitas não é uma intenção ou iniciativa partidária. Ela ocorrerá se e quando estas vontades se conjugarem e nunca porque conjugadas.

Entende-se quanto a refundação da direita a partir das direitas - a que prosaicamente os partidos chamam "Estados Gerais" - seria útil para dar à intervenção partidária um rumo e um vigor que parecem perdidos.

Mas, neste caso, não basta wishfull thinking...

Fui sempre uma mulher de direita. Sou também, por livre e consciente opção, militante do CDS/PP.

Nesta dupla condição não quero ver, precipitadamente queimadas, estas ideias que noutras condições poderão ter valor substantivo e pernas para andar. Estou certa de que o partido saberá, sempre, qual é o seu lugar.
Maria José Nogueira Pinto

in DN